Francisco Manuel Sousa

Cenas a granel (I)

O PACIENTE entra no gabinete, visivelmente ansioso. O MÉDICO, sentado à secretária, e enigmaticamente calmo, faz-lhe sinal para que se sente. O PACIENTE assim faz.

 

MÉDICO: Oiça, eu chamei-o cá porque já chegaram os resultados da biópsia aos pólipos que lhe retirámos há três semanas.

PACIENTE: Ó meu Deus! E então, Sr. Dr.? É cancro, não é? Eu já sabia que algo não estava bem…

MÉDICO: Nada disso.

(Pausa)

MÉDICO: É completamente o oposto.

PACIENTE: Como assim, o oposto?

 

O MÉDICO roda uma folha com texto e imagens que está em cima da mesa, para que o PACIENTE a possa ler.

 

MÉDICO: Bem, na verdade, como pode ver, o que o Sr. tem são rebuçados Bola de Neve a crescer-lhe ao longo de todo o intestino.

PACIENTE (meio confuso, meio indignado): Rebuçados Bola de Neve? Mas isso não é mau na mesma?

MÉDICO: Ó meu amigo, só se não gostar de rebuçados Bola de Neve! Tirando isso, é absolutamente inofensivo.

 

O PACIENTE olha incrédulo e pensativo para a folha durante alguns segundos. Depois, levanta lentamente o olhar para o MÉDICO.

 

PACIENTE: E são muitos?

MÉDICO (entusiasmado): Pelas minhas estimativas, se fizermos uma colonoscopia a cada dois meses, conseguimos sacar-lhe quilo e meio, quilo e setecentas deles.

 

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